É à noite que costuma ser pior. A pessoa se deita, e os pés começam a queimar uma sensação difícil de descrever para quem nunca sentiu. Outras vezes é um formigamento constante, como se mil agulhas estivessem cravadas na sola. Em alguns casos, basta o roçar do lençol para produzir dor. Se você tem diabetes e reconhece esses sintomas, provavelmente está enfrentando uma das complicações mais comuns e mais subtratadas da doença: a neuropatia diabética.
A neuropatia diabética afeta cerca de metade das pessoas com diabetes ao longo da vida e mesmo assim, muitos pacientes convivem com a condição por anos sem diagnóstico ou tratamento adequado. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo para mudar essa realidade.
O que é a neuropatia diabética?
A neuropatia diabética é uma lesão progressiva dos nervos periféricos causada pela exposição prolongada a níveis elevados de glicose no sangue. É uma das complicações crônicas mais comuns do diabetes junto com retinopatia, nefropatia e doença cardiovascular e pode afetar tanto pessoas com diabetes tipo 1 quanto tipo 2.
O excesso de glicose causa dano aos nervos por múltiplos mecanismos simultâneos: produção de produtos finais de glicação avançada que se depositam nos nervos, comprometimento do fluxo sanguíneo dos pequenos vasos que nutrem as fibras nervosas, estresse oxidativo e inflamação crônica de baixo grau. O resultado é a degeneração progressiva dos nervos começando pelas fibras mais finas e mais distantes do corpo (os pés, justamente).
Por que os pés? Por que à noite?
A neuropatia diabética afeta os nervos mais longos primeiro e os nervos mais longos do corpo são os que vão até os pés. Por isso, os sintomas começam quase invariavelmente nas extremidades dos membros inferiores, e progridem lentamente em direção ao tornozelo, panturrilha e, eventualmente, mãos. É o chamado padrão “em bota e luva”.
Quanto à pior intensidade noturna, a explicação envolve vários fatores. Durante o dia, a movimentação, os estímulos sensoriais e as atividades cotidianas “distraem” o cérebro do processamento dos sinais dos nervos lesionados. À noite, no repouso, o cérebro fica mais atento aos sinais provenientes dos pés e a dor se torna mais perceptível. Além disso, mudanças circadianas hormonais e o aquecimento dos pés sob o cobertor podem amplificar a sensação.
Quais são os sintomas da neuropatia diabética?
A neuropatia diabética não se manifesta apenas como dor. Os sintomas podem variar e mudam ao longo da progressão da doença:
Sintomas iniciais (sensitivos)
- Formigamento (parestesia) sensação de “agulhadas” ou “alfinetadas”
- Queimação ou ardência nos pés geralmente pior à noite
- Dormência progressiva começa nas pontas dos dedos e sobe lentamente
- Sensação de “choque” ou pontadas
- Pés frios ou quentes sem motivo aparente
- Hipersensibilidade ao toque (alodinia) o lençol roçando incomoda
Sintomas avançados (motores e autonômicos)
- Fraqueza muscular nos pés e pernas, dificultando andar
- Atrofia dos pequenos músculos do pé dedos em garra, deformidades
- Perda do reflexo aquileu (do tornozelo)
- Perda da sensação de dor paradoxal, mas perigosa: lesões e infecções podem passar despercebidas
- Pé diabético: úlceras, infecções e, em casos graves, amputação
- Sintomas autonômicos: sudorese alterada, queda de pressão ao levantar, alterações intestinais e urinárias
O paradoxo da neuropatia diabética avançada
Em fases iniciais, há excesso de sensação dor, queimação, formigamento. Em fases avançadas, há perda de sensação anestesia, perda de reflexos, perda da percepção de temperatura e pressão.
Essa fase avançada é especialmente perigosa: o paciente pode pisar em pregos, queimar o pé em água quente ou desenvolver úlceras profundas sem perceber. É quando aparece o “pé diabético” uma das principais causas de amputação não traumática no Brasil.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da neuropatia diabética é principalmente clínico, baseado nos sintomas e no exame físico cuidadoso. Em consulta, a avaliação inclui:
- Histórico detalhado: tempo de diabetes, controle glicêmico, sintomas e sua evolução
- Exame com monofilamento (teste de pressão fina) avalia sensibilidade protetora
- Teste com diapasão (vibração) uma das fibras mais precoces a ser afetada
- Avaliação de reflexos profundos (especialmente aquileu)
- Pesquisa de sensibilidade dolorosa, térmica e tátil
- Inspeção dos pés: deformidades, úlceras, calos, sinais de infecção
Em casos com dúvida diagnóstica ou progressão atípica, a eletroneuromiografia (ENMG) confirma o tipo e extensão do comprometimento nervoso. Exames laboratoriais adicionais podem ser solicitados para descartar outras causas de neuropatia (deficiência de B12, hipotireoidismo, doenças autoimunes).
É possível tratar a neuropatia diabética?
Sim e o tratamento atua em três frentes simultâneas, todas igualmente importantes:
1. Controle glicêmico rigoroso
É a base de tudo. Sem controle adequado da glicemia (idealmente HbA1c abaixo de 7%), a lesão dos nervos continua progredindo, e nenhum tratamento sintomático será suficiente.
2. Tratamento sintomático da dor neuropática
Aqui entram os medicamentos que atuam especificamente sobre a dor neuropática diferentes dos analgésicos comuns, que costumam ter pouca eficácia. As opções com maior evidência incluem pregabalina, gabapentina, duloxetina e amitriptilina. Cremes tópicos com capsaicina podem ajudar em casos localizados.
3. Procedimentos intervencionistas para casos refratários
- Bloqueios nervosos periféricos para alívio localizado
- Agulhamento seco em casos com componente miofascial associado
- Estimulação medular (SCS) com evidência científica robusta especificamente para neuropatia diabética dolorosa refratária
A estimulação medular merece destaque: estudos recentes demonstram que pacientes com neuropatia diabética dolorosa que não responderam aos medicamentos têm melhora significativa e sustentada da dor com a SCS em alguns casos, melhora inclusive da função neurológica. É uma opção que muitos pacientes desconhecem e que pode transformar a qualidade de vida.
Cuidados essenciais para quem tem neuropatia diabética
- Inspecione os pés diariamente usar espelho se necessário para olhar a planta
- Não andar descalço, mesmo dentro de casa
- Não testar a temperatura da água do banho com os pés
- Cortar as unhas em linha reta, sem cantos profundos
- Hidratar os pés diariamente exceto entre os dedos
- Usar calçados confortáveis, com proteção adequada e palmilha apropriada
- Buscar atendimento imediato em qualquer ferida, vermelhidão ou alteração de cor
- Manter o controle glicêmico sem isso, nada do resto vai funcionar