Muitas pessoas associam a enxaqueca apenas à dor de cabeça pulsátil. Mas existe uma forma de enxaqueca em que o sintoma principal não é a dor, e sim a tontura e a vertigem: a enxaqueca vestibular. Ela é uma das causas mais comuns de tontura recorrente em adultos, mas é frequentemente subdiagnosticada, levando o paciente a peregrinar entre vários especialistas sem um diagnóstico claro.
A enxaqueca vestibular pode causar episódios de tontura e vertigem com ou sem dor de cabeça associada, o que torna o diagnóstico desafiador. A Dra. Natally Santiago, neurocirurgiã funcional especializada em tratamento de cefaleias e dor crônica, explica neste artigo o que é a enxaqueca vestibular, como reconhecer os sintomas, como diferenciar de outras causas de tontura e quais são os tratamentos disponíveis.
O que é a enxaqueca vestibular?
A enxaqueca vestibular (também chamada de migrânea vestibular ou vertigem associada à enxaqueca) é uma condição neurológica em que os mecanismos da enxaqueca afetam o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio. O resultado são episódios de tontura e vertigem que podem ocorrer junto com a dor de cabeça, antes dela, depois dela ou de forma completamente independente.
Estima-se que a enxaqueca vestibular afete cerca de 1% da população e seja responsável por uma parcela significativa dos casos de tontura recorrente. É mais comum em mulheres e frequentemente tem histórico familiar de enxaqueca.
Sintomas característicos
A enxaqueca vestibular tem uma apresentação variável, o que dificulta o diagnóstico. Os sintomas mais comuns incluem:
- Vertigem (sensação de que tudo gira ao redor) que dura de minutos a horas
- Tontura e sensação de desequilíbrio
- Sensação de flutuar ou de estar em um barco
- Náuseas e às vezes vômitos durante as crises
- Sensibilidade à luz e ao som durante os episódios
- Dor de cabeça que pode ou não acompanhar a tontura
- Piora com movimentos da cabeça
- Sensibilidade visual a ambientes com muito movimento (supermercados, multidões)
Um aspecto importante: nem sempre a dor de cabeça está presente durante a crise de tontura. Isso faz com que muitos pacientes não associem os sintomas à enxaqueca, dificultando o diagnóstico.
O que desencadeia as crises
Os gatilhos da enxaqueca vestibular são semelhantes aos da enxaqueca comum. Os principais são:
- Estresse e ansiedade
- Privação ou excesso de sono
- Alterações hormonais (período menstrual)
- Jejum prolongado
- Certos alimentos (queijos curados, vinho, alimentos processados)
- Cafeína em excesso ou abstinência de cafeína
- Estímulos visuais intensos
- Mudanças climáticas e de pressão atmosférica
Como diferenciar de outras causas de tontura
A tontura tem muitas causas possíveis, e a diferenciação é fundamental. As principais condições que precisam ser distinguidas da enxaqueca vestibular são:
Vertigem posicional (VPPB)
A vertigem posicional paroxística benigna causa vertigem intensa e breve (segundos) desencadeada por movimentos específicos da cabeça, como deitar ou virar na cama. Diferente da enxaqueca vestibular, as crises são muito curtas e ligadas à posição.
Doença de Ménière
Causa vertigem associada a perda auditiva flutuante, zumbido e sensação de pressão no ouvido. A enxaqueca vestibular geralmente não causa perda auditiva permanente.
Labirintite e neurite vestibular
Quadros geralmente agudos e únicos, associados a infecções. A enxaqueca vestibular é recorrente e episódica ao longo de anos.
Causas neurológicas centrais
Em casos atípicos, é importante descartar causas neurológicas mais sérias, especialmente quando há sintomas neurológicos associados. Por isso a avaliação especializada é importante.
Sinais de alerta — procure avaliação médica
- Tontura súbita e intensa, diferente de tudo que já sentiu
- Tontura com dificuldade para falar, andar ou enxergar
- Tontura com fraqueza ou dormência em um lado do corpo
- Perda auditiva súbita associada à tontura
- Dor de cabeça súbita e intensíssima junto com a tontura
- Tontura após trauma na cabeça
Diagnóstico
O diagnóstico da enxaqueca vestibular é essencialmente clínico, baseado nos critérios internacionais (Bárány Society e ICHD-3). Inclui:
- Histórico detalhado dos episódios de tontura e sua relação com enxaqueca
- Histórico pessoal ou familiar de enxaqueca
- Exame neurológico e otoneurológico completo
- Exclusão de outras causas (exames audiológicos e de equilíbrio)
- Ressonância magnética em casos atípicos para descartar outras condições
Tratamentos disponíveis
O tratamento da enxaqueca vestibular segue princípios semelhantes ao da enxaqueca crônica, com foco em controle de crises e prevenção:
Tratamento das crises
- Medicamentos para náusea e tontura na fase aguda
- Repouso em ambiente calmo e escuro
- Medicamentos específicos para enxaqueca quando há dor associada
Tratamento preventivo
- Identificação e controle de gatilhos
- Medicamentos preventivos quando as crises são frequentes
- Reabilitação vestibular (fisioterapia do equilíbrio)
- Mudanças no estilo de vida (sono regular, alimentação e manejo do estresse)
- Em casos selecionados com enxaqueca associada, procedimentos como toxina botulínica
Quando procurar a Dra. Natally Santiago
Considere avaliação especializada se você tem:
- Episódios recorrentes de tontura ou vertigem sem causa clara
- Tontura associada a histórico de enxaqueca
- Tontura que piora com luz, som ou movimento
- Tontura que não foi resolvida por outros tratamentos
- Dor de cabeça associada a desequilíbrio
- Histórico familiar de enxaqueca com sintomas de tontura
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