Dor de cabeça hormonal e enxaqueca menstrual: por que acontece e como tratar

Mulher expressando sintomas de dor de cabeça hormonal (enxaqueca menstrual), ilustrando o diagnóstico e o tratamento especializado com a Dra. Natally Santiago em São Paulo.

Se você é mulher e percebe que suas dores de cabeça pioram, ou aparecem, nos dias que antecedem ou coincidem com a menstruação, não é coincidência. A dor de cabeça hormonal, especialmente na sua forma mais intensa chamada enxaqueca menstrual, é uma das queixas mais comuns no consultório de neurologia e neurocirurgia funcional. Estima-se que mais de 50% das mulheres com enxaqueca percebem uma relação direta com o ciclo menstrual.

Compreender essa relação é o primeiro passo para tratar de forma adequada. A Dra. Natally Santiago, neurocirurgiã funcional especializada em cefaleias, explica neste artigo por que os hormônios desencadeiam dor de cabeça, como identificar a enxaqueca menstrual, quais outros fatores hormonais influenciam as crises e o que pode ser feito para controlar esse ciclo de dor.

Por que os hormônios causam dor de cabeça?

O estrogênio é o principal hormônio envolvido na relação entre ciclo menstrual e enxaqueca. No período que precede a menstruação, os níveis de estrogênio caem de forma abrupta após um pico. Esse declínio rápido do estrogênio é o principal gatilho biológico da enxaqueca menstrual.

O estrogênio influencia diretamente a serotonina, um neurotransmissor fundamental na regulação da dor e das vias trigeminovasculares (o sistema envolvido na enxaqueca). Quando o estrogênio cai, a serotonina também cai, e os mecanismos de proteção contra a dor ficam mais vulneráveis. Além disso, a queda do estrogênio promove a liberação de prostaglandinas, substâncias inflamatórias que sensibilizam os vasos sanguíneos e as terminações nervosas do crânio.

O que é a enxaqueca menstrual?

A enxaqueca menstrual é a enxaqueca que ocorre de forma previsível e relacionada ao ciclo. Os critérios internacionais (ICHD-3) definem dois tipos:

Enxaqueca menstrual pura

As crises acontecem exclusivamente durante o período menstrual (do 2º dia antes ao 3º dia após o início da menstruação) e não ocorrem em outros momentos do mês. É o tipo menos comum, mas o mais claramente hormonal.

Enxaqueca relacionada à menstruação

As crises são mais frequentes e intensas ao redor da menstruação, mas também ocorrem em outros momentos do ciclo. É a forma mais comum entre as mulheres com enxaqueca.

Além da TPM: outros momentos hormonais que influenciam a enxaqueca

Ovulação

Na ovulação, há um pico de estrogênio seguido de queda. Algumas mulheres percebem crises também nesse momento do ciclo, geralmente no meio do mês.

Uso de anticoncepcionais

A semana de pausa do anticoncepcional oral combinado (pílula) causa uma queda abrupta de estrogênio exatamente como a natural antes da menstruação. Para mulheres com enxaqueca, isso pode desencadear crises severas nesse período. Anticoncepcionais com estrogênio podem piorar a enxaqueca com aura, e a combinação exige avaliação médica cuidadosa.

Gravidez

No primeiro trimestre, as variações hormonais podem intensificar as crises. A partir do segundo trimestre, quando os níveis de estrogênio se estabilizam em patamares altos, muitas mulheres experimentam melhora significativa da enxaqueca.

Perimenopausa

A perimenopausa é frequentemente o período mais difícil para mulheres com enxaqueca hormonal. As flutuações intensas e imprevisíveis do estrogênio nessa fase podem aumentar a frequência e a intensidade das crises significativamente.

Pós-menopausa

Com a estabilização dos níveis hormonais em patamares baixos, muitas mulheres observam melhora da enxaqueca após a menopausa. Entretanto, a terapia de reposição hormonal pode influenciar esse quadro de formas variadas, dependendo do tipo e da via de administração.

Como identificar que sua dor de cabeça é hormonal

Um diário de crises é o instrumento mais valioso para confirmar a relação hormonal. Vale registrar:

  • Data e horário de início de cada crise;
  • Intensidade (de 1 a 10);
  • Sintomas associados (náusea, fotofobia, aura);
  • Dia do ciclo menstrual;
  • Medicamentos usados e resposta;
  • Possíveis gatilhos (sono, estresse, alimentação, viagens).

Após 2 a 3 meses de registro, o padrão hormonal geralmente fica evidente. Esse diário é fundamental para a consulta com o especialista e orienta diretamente as decisões de tratamento.

Tratamentos disponíveis

O tratamento da enxaqueca menstrual e da dor de cabeça hormonal é personalizado e depende da frequência, da intensidade das crises e do contexto hormonal da paciente.

Tratamento das crises

  • Analgésicos e anti-inflamatórios específicos no início da crise;
  • Medicamentos específicos para enxaqueca (triptanos) quando indicados;
  • Repouso em ambiente calmo, escuro e silencioso;
  • Evitar os gatilhos conhecidos, especialmente nos dias de maior vulnerabilidade.

Tratamento preventivo

  • Prevenção miniperiodual: uso de medicamento específico nos dias de maior risco hormonal;
  • Anticoncepcionais de uso contínuo (sem pausa) em mulheres selecionadas;
  • Suplementação de magnésio, com evidência para redução de enxaqueca hormonal;
  • Ajuste do anticoncepcional em uso quando ele é o fator agravante;
  • Para crises frequentes e intensas: tratamento preventivo contínuo;
  • Toxina botulínica pelo protocolo PREEMPT quando a enxaqueca é crônica.

Atenção especial: enxaqueca com aura e estrogênio

A enxaqueca com aura associada ao uso de anticoncepcionais contendo estrogênio aumenta o risco de acidente vascular cerebral.

Mulheres com enxaqueca com aura não devem usar anticoncepcionais com estrogênio sem avaliação neurológica prévia.

Essa é uma das razões mais importantes para buscar avaliação especializada antes de iniciar ou manter anticoncepção hormonal.

Quando procurar avaliação especializada

Considere avaliação com a Dra. Natally Santiago se:

  • As crises menstruais são incapacitantes e prejudicam trabalho ou rotina;
  • Você usa mais de 2 dias de medicação por semana para controlar a dor;
  • As crises estão piorando ao longo dos ciclos;
  • Você tem enxaqueca com aura e usa anticoncepcional com estrogênio;
  • Está na perimenopausa e a enxaqueca se intensificou;
  • O tratamento atual não está controlando adequadamente as crises.
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Adriano Devequi
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